Como o coronavírus impacta nosso estilo?

Para o jornalista e consultor de estilo, André do Val, o pós-pandemia na moda será marcado por um cenário mais introspectivo.

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Investimento em políticas de sustentabilidade, o slow fashion e comércio digital, já eram assuntos que a indústria têxtil tinha que lidar muito antes da pandemia de COVID-19, mas agora eles ganharam ainda mais os holofotes quando o público passou a ressignifcar muito mais o que anda vestindo e consumindo.

O mundo está e será ainda mais diferente. Não temos como negar essa informação. Aqui no site já apresentei uma série de dados e tendências que vão nos impactar, seja agora ou após o coronavírus, que infelizmente não temos uma data certa para acabar.

O mundo que conhecíamos não existe mais.

O COVID-19, por mais negativo que esteja sendo, está acelerando uma série de tendências, que iriam acabar acontecendo, entre elas está o consumo consciente e uma maior preocupação com sustentabilidade. O modelo de negócio que se baseava no lucro a qualquer custo perde o propósito quando seu público se torna mais questionador.

O mundo está passando por uma mutação e nosso estilo também segue essa mudança. O que será dele nos próximos anos? Como vamos nos vestir a partir de agora?

Vivemos um momento atípico onde, mesmo no meio de tamanha instabilidade, alguns sinais do que será o “novo normal” já ficam claros, como o recolhimento e excesso de cuidados com nossa higiene e saúde.

Mas como essa nova realidade vai impactar nossa roupa? São através de perguntas como essas que o consultor de estilo e jornalista, André do Val, traz algumas análises do que será “o nosso jeito de se vestir e consumir no pós-pandemia”.

Você acredita que nosso estilo será impactado pela quarentena?

[André do Val]: Já fomos impactados! De um modo geral, grandes crises como as causadas por essa pandemia (saúde, economia, política…) não combinam com nenhum tipo de ostentação. Por isso o que vamos ver daqui para frente é um modo de vestir mais discreto e contido, comparado com o alto consumismo das últimas décadas. E o distanciamento social ainda deve se tornar um comportamento comum mesmo depois da quarentena: grandes festas e eventos foram adiados/cancelados e o home-office é uma tendência irreversível. Então, toda ideia de dress-code e de guarda-roupa formal perdem a força, já que não é preciso se vestir de acordo com o ambiente. Cada vez mais as pessoas vão privilegiar roupas confortáveis para essa nova realidade. Mas falo de roupas de ficar em casa, que são diferentes de pijamas! Por fim, acredito que a emergência dos apps de videoconferência vão nos fazer tomar mais cuidados com a moldura perto do rosto, então vamos caprichar mais especialmente nessa parte que aparece na tela do celular e computador (óculos, joias e bijoux, gola de camisa, estampas que não causem interferência…)

Os calendários de desfiles internacionais foram todos cancelados ou remodelados. Será que isso é na verdade um pressagio de um fim daquele formato de apresentação?

Não é um presságio, é o sinal definitivo. Esse segmento já vinha sofrendo perda de público e relevância e isso vai ser acentuado dado o retrato que temos pela frente. Pra que juntar tanta gente junto se é possível apresentar tudo online? Acredito que as marcas vão explorar as infinitas maneiras de expor seus produtos online, mas o formato desfile, primeira fila, celebridades, fotógrafos já não fazia mais sentido mesmo antes da pandemia.

Cada vez mais as pessoas vão privilegiar roupas confortáveis para essa nova realidade. Mas falo de roupas de ficar em casa, que são diferentes de pijamas!” ANDRÉ DO VAL

Como você acredita será o “novo normal” na moda?

O novo normal é mais introspectivo. Vamos sair menos, gastar menos e reduzir os elementos que temos para comunicar estilo pessoal por meio da moda. É menos sobre imagem e mais sobre conteúdo. É menos sobre “o que” e mais sobre “como”.

O que a moda e o estilo podem ressignifcar com essa pandemia e talvez ainda não estejam preocupadas?

A indústria de moda só vai sobreviver se parar de tratar sobre indivíduos e falar pelo coletivo. Não pode ser mais sobre “eu quero”, “eu tenho”, “eu posso”. Os processos precisam ser repensados de modo a funcionar como fonte de renda para comunidades inteiras e não apenas poucos empresários. Ou de modo a vestir todo mundo e não apenas um modelo a ser seguido…. É preciso conectar seres humanos com grupos e não apenas passar a informação de cima para baixo.

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