Moda e comunicação: como agir durante e depois do coronavírus?

O que será da moda: como marcas conseguem criar uma imagem e reputação em tempos adversos de coronavírus?

A moda sempre utilizou a comunicação como um braço muito importante para divulgar suas ações, seja em momentos de expansão ou de turbulência. Mas agora, como essa indústria consegue construir bases solidas que tragam possíveis resultados meio uma pandemia? Como construir uma imagem e até mesmo manter sua reputação de uma maneira que impacte positivamente sua audiência?

Esses são questionamentos extremamente profundos e pertinentes meio ao caos que vem se instaurando dentro da indústria da moda nos últimos dias.

Para tentar achar soluções, empresas estão se readaptando e tentando ao máximo reduzir os prejuízos. O desafio é verdadeiro e enorme, principalmente quando falamos de um item não essencial (roupa) nesse momento de coronavírus. Porém alguns possíveis caminhos existem, como bem lembra Carmela Scarpi, diretora de redação da @evenmoremag e head de conteúdo na AgênciaEM.:

A moda, como um item não essencial dentro de um período de insegurança econômica, precisa buscar no íntimo o motivo pelo qual se move. Resgatar lá de trás valores e propósitos (tão mencionados nos últimos tempos e, pelo visto, tão pouco colocados em prática) para entender o que é que se está fazendo no mundo”.

A catarinense Mari Chiko, especialista em empreendedorismo e negócios com alma, reforça que “em momentos adversos mantendo o olhar no proposito você está mais aberto a realizar as mudanças. Então, o propósito pode ser uma fonte inesgotável de inovação”.

É extremamente pertinente nesse momento o propósito entrar como diferencial e até mesmo sirva de sustentação para esses negócios.

Deixa-se um pouco de lado a venda direta e se conecta no impacto positivo.

Carmela ainda acrescenta que é o momento de “colocar na balança público e propósito, que sempre foi o norte de qualquer comunicação. Hoje se faz mais essencial entender essa dinâmica para decidir o que será comunicado. Talvez a solução não seja necessariamente o produto ou alguma vantagem econômica, mas a conexão que a marca gera com um conteúdo alinhado, mesmo que sem foco em venda, pode ter a conversão como consequência. E lembrar também: moda em si e comunicação de moda sempre foram ferramentas de conexão, e conexão não é só venda”.

Para a pesquisadora de comportamento e especialista em posicionamento de marca, Amanda Brandão, “as marcas que estão conquistando meu coração nesse momento, estão adotando um tom de bom senso: honestidade, esperança, solidariedade, notícias boas, positividade e até bom humor empático. Marcas que estão ignorando tudo e falando só sobre si, fazendo marketing de si mesmo, me parecem alienadas e em minha opinião se distanciam de vínculos humanos”.

Por sinal, a estratégia mais adequada para esse momento é o vínculo humano, seja para pequenas ou grandes marcas de moda.

Os números precisam ser transformados em seres humanos, já que a comunicação sempre foi construída para eles e é também na adversidade que esse relacionamento seja genuíno e colaborativo, como bem alerta Mari:

É hora de se amar. Se aproximar, da gente colaborar. Deixar os interesses próprios em segundo plano porque precisamos nos mexer coletivamente”.

A adesão de valores como a empatia serão cruciais nessa nova jornada. A ressignificação do consumo acabará acontecendo pelo público e precisa ser feito também pelas marcas de moda.

O motivo pelo qual a gente passa por essa ressignificação em massa é horrível, mas o fato disso ter acontecido é muito oportuno. Há quantos anos comunicadores, profissionais de branding, marketing vêm repetindo sobre propósitos, valores e transparência? Muita gente se utilizou de estratégias digitais para propagar esses discursos fundamentados em nada. Hoje esse preço é cobrado. Quando os valores e propósitos primordiais da marca são claros, as decisões e adaptações por mais difíceis que sejam de implementar, são claras também. Você pode mudar todas as ferramentas, migrar os produtos/serviços, alterar plataformas: quando uma marca é forte (e só é se tiver propósitos bem consolidados) as pessoas continuarão fazendo a leitura sobre a marca e vão engajar se pertencerem àquela comunidade”, enfatiza Carmela.

As Marcas vão precisar deixar de serem apenas comércio de roupa e terão que buscar no passado e na sua própria história uma motivação para continuar produzindo, como bem frisa Mari Chiko. “Todos vão sofrer as consequências. Está todo mundo dentro do mesmo barco. Quem é a sua marca dentro desse barco? O que ela faz? Ela ajuda o barco a sair dessa tormenta ou ela é uma ancora? ”.

Cooperação é outro aliado na manutenção e construção de uma imagem em prol da sociedade e até mesmo dos negócios.

Mari ainda usa como exemplo:

Estamos vendo diversas marcas de roupa fazendo máscaras para ajudar a população a se proteger. Vejo uma ação muito importante porque você cria uma conexão com o seu consumidor. No meu ponto de vista, esse não é o momento para pensar em venda até porque ninguém está pensando em comprar. O que seu consumidor está pensando? O que ele está necessitando neste momento? Talvez você não vai efetivar uma venda com entrada de caixa, mas você pode ter uma ação de conexão muito profunda com o seu consumidor. Ter esse olhar empático sempre com a lente do propósito pode te ajudar a trabalhar essa conexão para depois quando as coisas estiverem mais tranquilas a venda seja uma consequência”.

Ou seja, buscar trazer ações pertinentes e com autenticidade para não criar ruídos com o público-alvo e como bem disse Mari Chiko durante esse texto, estamos no mesmo barco, mas podemos construir uma nova moda e ainda mais interessante. Porém é preciso ter paciência e estratégia.

Boletos vencem para todo mundo, não podemos negar, mas na medida do possível é preciso respirar um minuto e pensar estrategicamente ao invés de se levar por uma avalanche de decisões impensadas que num momento sensível podem inclusive prejudicar a imagem da marca”, finaliza a jornalista Carmela.

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